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Memórias dos moradores do bairro da Relvinha em Coimbra: da Resistência Quotidiana à autoconstrução no âmbito do SAAL

Através de uma “etnografia em retrospectiva”, pretendeu-se estudar as memórias dos moradores do bairro da Relvinha, que “conceptualizam o passado a partir de um tempo presente”, tal como as memórias estudadas por Sónia Vespeira de Almeida. Dividi a minha investigação em três partes que correspondem a três tempos. A primeira parte é constituída pelos quotidianos dos moradores marcados pela pobreza e múltiplas estratégias de sobrevivência, que chegavam a dar forma a acções de resistência quotidiana. Trata-se de quotidianos vividos na zona da Estação Velha em Coimbra até 1954, ano em que 28 famílias foram desalojadas. O segundo tempo, pretende retratar o quotidiano dos moradores durante o período entre 1954 e 1974. Estas famílias excepto os três primeiros anos em que tinham sido realojadas em bairros camarários dispersos pela cidade, foram novamente realojadas num bairro de barracas de madeira construído de raíz que procurava resolver de forma provisória a situação relativa à habitação destes moradores. As barracas de madeira, pouco tempo depois de serem estreadas, começaram a ter problemas de insalubridade. A pobreza e a fome continuaram a marcar a vida destes moradores. Durante este período, começou a haver algum contacto com o movimento estudantil e com os movimentos de oposição, que contribuiram para um fortalecimento da consciência política e para o aparecimento de formas de resistência de novo tipo. Porém, apenas, após o 25 de Abril de 1974, com a adesão ao projecto SAAL, se deu o início da construção de casas novas em auto-construção e se substituiram as barracas de madeira, marcando o início de um novo tempo. Um tempo que é lembrado pelos moradores como um tempo denso em que está presente a “espoir”, conceito desenvolvido por Luísa Tiago Oliveira ao considerar que a “espoir” descrita por Malraux acerca da guerra civil espanhola se tratava de uma esperança idêntica à que se viveu e sentiu em Portugal nos dois ou três anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Neste processo de auto-construção houve uma intensa participação dos moradores do bairro da Relvinha. Os moradores, na execução da Operação SAAL da Relvinha, contaram com a colaboração de vários grupos que se solidarizaram com a luta destes moradores pelo direito a uma habitação condigna. Entre os mesmos, contam-se um grupo de estudantes de medicina, grupos culturais, grupos de jovens voluntários estrangeiros, empresas, pessoas a título individual que deram um contributo imenso para a consecução dos objectivos dos moradores.

João Baía

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