Vivências quotidianas num contexto (des)industrializado do Vale do Ave: uma perspectiva sociológica sobre os percursos objectivos e subjectivos do operariado feminino de Riba d’Ave


Esta breve apresentação procura ir de encontro à necessidade de melhor compreender um fenómeno social contextualizado na Freguesia de Riba d´ Ave, situada no Extremo Leste de Vila Nova de Famalicão, um dos concelhos integrantes da região do Vale do Ave. Foi nosso intuito apreender de que modo a construção subjectiva das trajectórias individuais se relaciona com as oportunidades e os constrangimentos mais amplos e duradouros da estrutura social, neste contexto espacial fortemente marcado pela implementação da indústria têxtil e pela consequente desindustrialização. Tendo sempre presente a importância de identificar, ao longo deste processo, as características e diferenciações internas da classe operária na construção da sua visão do mundo e na definição de estratégias pessoais e colectivas. Concomitantemente, tentamos descortinar qual o papel do operariado feminino na luta organizada de classes, com a intenção de perceber a relação estabelecida entre a vida dentro e fora da fábrica, descodificando assim, linhas e práticas de (re)produção social territorializadas.

Nesse sentido, foram realizadas, ou (re)construídas, oito histórias de vida de ex-operárias da Fábrica Sampaio Ferreira & Cª Lda, fundada em 1896 pelo tecelão Narciso Ferreira, embora inicialmente tivesse a designação de Fábrica de Fiação, Tecidos e Tinturaria de Riba de Ave. Esta foi a primeira fábrica algodoeira a emergir no concelho de Vila Nova de Famalicão, dando início à sua actividade com 200 teares e uma estrutura produtiva verticalizada onde incorporava sectores de fiação, tecelagem e tinturaria. É um fácil exemplo da apropriação da energia natural e operária na criação de uma estrutura económica e social durável, que se prolonga para além do seu encerramento em 2005. A história deste estabelecimento encerra em si mesmo o modelo tipo de criação, ascensão e declínio das unidades fabris da região e da burguesia paternalista que nelas se ancorava. As suas ruínas continuam a marcar a paisagem da freguesia de Riba d`Ave, de tal modo que são frequentemente apontadas como um incómodo visual que deve ser destruído e nunca reconstruído, porque em última instância, espelham o declínio das trajectórias profissionais individuais e, ao mesmo tempo, relembram a falência de um projecto colectivo que esmorece nas margens do Rio Ave.

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