Vivências e Práticas de formação na clandestinidade comunista (1940-1974)


Cristina Nogueira

Este artigo pretende dar conta das vivências de clandestinos comunistas durante o “Estado Novo”, caracterizando a sua forma de vida, as regras que tinham de cumprir para permanecerem clandestinos, conseguindo iludir a vigilância da polícia política.
Assumindo como pressuposto que a formação não se restringe ao espaço e ao figurino escolar, entende-se que existem outras estâncias formadoras, que, ainda que não tenham como seu esse objectivo, na realidade o alcançam. Considera-se que existem contextos informais de formação e que a experiência pode desempenhar um papel fundamental na formação de cada indivíduo, originando não só transformações superficiais, mas também profundas transformações na subjectividade e na identidade de cada pessoa.
Este artigo pretende caracterizar as práticas de formação na clandestinidade, defendendo-se que estas se centram fundamentalmente em torno de dois eixos: a formação experiencial e a formação não formal.
Quanto ao primeiro eixo, a formação ocorria pela e com a experiência e era reflectida e transmitida pela organização partidária a outros clandestinos que assim melhoravam as formas de iludirem a vigilância policial e adequarem as regras conspirativas aos avanços policiais. Estas experiências individuais foram reflectidas, por vezes discutidas e debatidas tendo originado um conhecimento partilhado pelos clandestinos que serviu para a criação de normas e regras de conduta. Foi esta formação pela experiência que permitiu que um conjunto de saberes fosse transmitido ao longo do tempo, reflectido e “armazenado” possibilitando assim permanência na situação de clandestinidade
Quanto ao segundo eixo, a formação não formal, defende-se que existia por parte a organização um forte apelo à formação e ao estudo. Esta formação centrava-se na alfabetização dos clandestinos não alfabetizados e sobretudo na formação política e ideológica, contudo, existia também uma procura de disseminação e vulgarização do saber, cujo acesso se entendia ser um direito de todos os homens. Deste modo, era dever de cada um partilhar o que sabia, assim como competia à organização partidária estimular o estudo e elevar o nível cultural de cada um, pois entendia-se a cultura e o conhecimento como factores potenciadores da emancipação humana.

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