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A invenção da Nacionalidade: Temas, Ritmos e Estratégias da Historiografia Portuguesa dos sécs. XII a XVI.

Conta-se que, já bem avançado o séc. XIX, o rei D. Luís perguntou a certos pescadores se eram portugueses e eles responderam-lhe que não, «que eram da Póvoa de Varzim». Verdadeira ou apenas benne trovata, esta pequena história ilustra na perfeição o que por vezes esquecemos: que a identidade nacional, aqui como em qualquer outro lugar, começou por não existir e nem sempre se manifestou da mesma maneira. Passou por diferentes circunstâncias, foi moldada pelos mais diversos actores, cumpriu múltiplas finalidades, significa uma coisa hoje, significou outra ontem, significará outra amanhã.

O que aqui vos proponho é simples: regressar às origens e ver como é que a ideia de Portugal foi ganhando corpo ao longo da Idade Média e do início da época moderna. De que forma os portugueses de então viam o seu passado, que laços de união consideravam (ou não consideravam) existir entre eles, como se chegou à ideia abstracta e quase sagrada de nação e que interesses ela serviu ou de que interesses se serviu.

Tomarei por guia as crónicas redigidas entre os séculos XIV e XVI e, como fio condutor, destacarei as diversas explicações que elas foram dando a respeito daquele que depois se tornaria o símbolo por excelência do país: a sua bandeira. Que dizem as mais antigas crónicas acerca da origem e do significado da nossa bandeira? A que motivações, estratégias e contextos obedeceram essas explicações, e de que forma elas condicionaram as gerações futuras? O que a escola nos ensinou e os meios de comunicação social nos ensinam acerca do significado das quinas e dos castelos será o mesmo que os portugueses desses séculos diziam?

Eis, em síntese, o que se analisará, problematizará e discutirá.

Filipe Alves Moreira

Gravação de 28 de Maio

 

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Trabalhar em centros comerciais. Algumas notas sobre uma pesquisa empírica.

Os centros comerciais (1) marcam desde os anos oitenta do século XX a paisagem urbana e comercial portuguesa. No contexto das jornadas sobre centros comerciais que se realizaram em Lisboa, no ano de 1989, defendeu-se que estes espaços eram centros de vida, uma vez que para além do uso comercial também estava em causa um uso cultural, desportivo e social. Volvidos vinte anos sobre esse encontro, destacamos uma outra utilização absolutamente incontornável – a laboral -, que remete para uma dimensão da sociedade do consumo e do lazer composta por indivíduos para quem estes centros comerciais correspondem aos seus locais de trabalho.

Muito embora contemplados sob o olhar da arquitectura, da engenharia e da geografia, os centros comerciais raramente têm sido analisados pela sociologia, exceptuando alguns estudos sobre a sociologia do consumo que os consideram como a expressão máxima de uma cultura de consumo e local mágico de troca e de fruição de mercadorias. Esta constatação, as conclusões decorrentes de um trajecto de investigação anterior (2) e a circulação por estes espaços em muito contribuíram para elegermos como objecto de estudo os/as trabalhadores/as dos centros comerciais.

Nesta Oficina n.º 2 pretendemos dar conta da pesquisa desenvolvida sobre o universo laboral constituído pelos/as trabalhadores/as de lojas de vestuário e de restauração localizadas em centros comerciais. O objectivo central será o de reflectir sobre a estratégia metodológica accionada para investigar esta realidade e os desafios encontrados.

Sofia Alexandra Cruz

(1) A Portaria nº424/85 de 5 de Julho define o centro comercial como o “empreendimento comercial que reúna cumulativamente os seguintes requisitos:

  1. possua uma área bruta mínima de 500m2 e um número mínimo de doze lojas, de venda a retalho e prestação de serviços, devendo estas, na sua maior parte, prosseguir diversificadas e especializadas;
  2. todas as lojas devem ser instaladas com continuidade num único edifício ou em edifícios ou pisos contíguos e interligados, de modo a que todas usufruam de zonas comuns privativas do centro pelas quais prioritariamente o público tenha acesso às lojas implantadas;
  3. o conjunto do empreendimento tem de possuir unidade de gestão, entendendo-se por esta a implementação, direcção e coordenação dos serviços comuns, bem como a fiscalização do cumprimento de toda a regulação interna;
  4. o período de funcionamento (abertura e encerramento) das diversas lojas deve ser comum, com excepção das que pela especificidade da sua actividade se afastem do funcionamento usual das outras actividades instaladas”.

(2) No âmbito da tese de mestrado desenvolvemos uma reflexão sobre a especificidade do trabalho da linha de caixas nos hipermercados (Sofia Alexandra Cruz, 2003, Entre a Casa e Caixa. Retrato de Trabalhadoras na Grande Distribuição, Porto, Afrontamento).

Gravação de 30 de Abril

 

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Estado, Alojamento e a «Questão Social» no Porto: estudo de uma intervenção habitacional do Estado Novo.

Depois de visitar o Bairro onde fica a pequena moradia que o Estado lhe atribuiu, na sequência da sua inscrição no concurso para aquisição de uma das novas Casas Económicas da cidade, Joaquim parece menos entusiasmado com a perspectiva de sair do acanhado 2º Esquerdo da Baixa onde vive desde que casou. “Aquilo é o desterro! Disseram-me lá que tem havido muitas desistências porque os homens trabalham no centro e ir e vir todas os dias, para além de ser uma despesa muito grande para um simples empregado como eu, significa perder mais de duas horas por dia em viagens, entre percursos de eléctrico e deslocações a pé. Não sei se vou conseguir aguentar, tanto mais que o valor que eles pedem de prestação mensal é alto. 85$, para quem ganha só 450, não é exactamente uma pechincha…”

A esposa de Joaquim, porém, insiste na mudança. No novo Bairro não falta nada: há escola e espaço para as crianças brincarem, mercearia, padaria, talho… E cada casa tem o seu próprio quintal. Fome, pelo menos, nunca passarão!
Joaquim concorda, mas não parece totalmente convencido. Em particular, parecem intrigá-lo os motivos que levaram a Secção de Casas Económicas a construir moradias tão longe do centro, nos arrabaldes da cidade, quase a chegar a S. Mamede de Infesta. Ainda assim, o que ali está é uma “oportunidade única” que o Estado Novo e o Sindicato lhe dão de poder concretizar o sonho de se tornar proprietário e de, um dia, deixar uma herança aos filhos de que se orgulhe. Há, por isso, que tratar da papelada em falta, para que a oportunidade não se perca.

A partir do estudo aprofundado de uma intervenção habitacional do Estado Novo no Porto (estudar-se-á, especificamente, um dos Bairros de Casas Económicas construídos na cidade na década de 1930), pretende-se obter respostas para algumas das questões que a reflexão sociológica sobre as relações entre Estado, Alojamento e Questão Social no nosso país geralmente aporta:

  • Quais as propriedades genéticas da política de promoção de habitação pelo Estado em Portugal?
  • Quais os condicionalismos impostos por essas propriedades genéticas à trajectória subsequente das políticas de habitação no nosso país?
  • Qual a especificidade da política habitacional no conjunto das medidas de confrontação do Estado com a “Questão Social”?
  • Que relação entre política de habitação e política de expansão e desenvolvimento urbano na cidade do Porto?
  • Quais os efeitos das intervenções habitacionais na (re)composição do tecido social portuense?
  • Qual o papel reservado pelo Estado às populações-alvo das intervenções habitacionais?
  • Que pode haver de singular em cada uma das intervenções desenvolvidas no quadro de um programa estatal de construção de habitação e em que medida as eventuais singularidades aprofundam ou, pelo contrário, subvertem os princípios gerais desse programa?

Na medida em que o estudo a que esta apresentação se reporta está longe da sua conclusão, a Oficina do próximo dia 26 não poderá ainda oferecer respostas conclusivas a estas questões. Por isso, a oportunidade será aproveitada, acima de tudo, para tentar, com os participantes, afinar as perguntas a colocar à realidade e para potenciar a discussão em torno do método que mais eficientemente as poderá esclarecer.

João Queirós

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Apresentação.

Esta iniciativa organizada no quadro das actividades da UPP – Universidade Popular do Porto é, antes de mais, um lugar de intercâmbio onde falamos do nosso trabalho e conhecemos o dos outros. Tudo porque rejeitamos essa espécie de “solidão especializada”, hoje tantas vezes prevalecente, e reconhecemos que o conhecimento é sempre mais do que a soma das suas infinitas partes.

Somos uma oficina onde o pensar é um trabalho de todos para todos. Por isso, junta-te a nós no esforço de alargar os limites do pensável.

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