Archive for category Resumos

Desproletarizar: A Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) enquanto instrumento de mediação ideológica no Estado Novo.

Nuno Domingos

Este artigo procura discutir o quadro da actividade política e ideológica da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), organização de tempos livres para trabalhadores criada pelo Estado Novo em 1935. A remissão da FNAT para o contexto da formação por parte do regime de um sistema de inculcação ideológica, típico de outros regimes fascistas, encerra a instituição numa cronologia estrita, definida pela tipologia do regime. Argumenta-se neste artigo que tanto a génese como o âmbito da actividade concreta da instituição respondem a um conjunto de problemas cujas condições históricas e sociais de produção se encontram dentro de outra cronologia, que precede e ultrapassa o Estado Novo, e cujo eixo de causalidade elementar, embora não o único, se encontra na história da regulação das relações de produção e na reprodução da força de trabalho. No âmbito do sistema corporativo, a FNAT estabeleceu-se como um dos instrumentos modernos de regulação das relações de produção de tipo capitalista, partilhados em fóruns internacionais e institucionalizados no aparelho de Estado por intermédio de uma burocracia técnica do conhecimento. A progressiva autonomização de um campo específico de resolução de problemas repercutiu-se no contexto da formulação de políticas de enquadramento estrutural, como a construção de sistemas de segurança social, como na acção situada à escala da empresa, espaço de socialização no qual a FNAT interveio. Uma das consequências da autonomização deste campo de resolução de problemas é o modo como, por intermédio de um processo de eufemização, tende a ocultar as suas condições históricas de produção.

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Arqueologia e legitimação do poder

Paulo Lima

A Arqueologia é a disciplina da Modernidade que se propõe interpretar as obras culturais e os vestígios dos seres humanos do “passado” e com isso compreender o homem e a sua trajectória no Mundo.
Porém, aquilo que aparentemente parece acessível mediante o uso de metodologias científicas adequadas de recolha de dados e de estudo aturado dos vestígios, revela-se como uma missão controversa pois as narrativas sobre o passado não são imunes aos interesses sociopolíticos, sendo, elas próprias, instrumentos que permitem a legitimação, reprodução e manutenção de certas formas de poder.
Será legítimo, ou melhor, a quem serve a extrapolação para as sociedades do passado (que seguramente funcionaram segundo uma racionalidade de subjectivização que não nos é acessível) através da utilização de ferramentas conceptuais vinculadas à visão ocidental do Mundo?

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Biopolítica e dispositivos mediáticos: para uma descrição das relações de poder na contemporaneidade.

Luís Carneiro

Nesta oficina, após a apresentação do conceito, proposto por Michel Foucault, de biopolítica – conceito que ilustra o tipo de racionalidade política emergente no século XVIII com a introdução de um vasto conjunto de técnicas e procedimentos tendentes à regulação e controlo das populações -, veremos de que modo pode ele ser pensado na contemporaneidade, nomeadamente a par do desenvolvimento dos mass media, dos meios de comunicação, da cibernética e das tecnologias digitais. Uma hipótese condutora será a da progressiva virtualização e desterritorialização da própria vida, na medida mesma da sua captura pelas técnicas biopolíticas características do Capitalismo tardio.

De forma a explicitar o modo de procedimento desta captura analisaremos também o conceito de dispositivo, termo técnico desenvolvido por Michel Foucault, compreendendo em si um conjunto heterogéneo de coisas tais como discursos, instituições, edifícios, leis, medidas policiais, proposições filosóficas, etc., e mais especificamente o de dispositivo mediático, pensado como aquilo que, mediatizando toda a relação do homem consigo mesmo, com o outro e com o mundo, possui a capacidade de modelar, esquematizar, assegurar e controlar gestos, comportamentos, condutas e opiniões. Para tal, veremos de que maneira, na esteira do trabalho de Giorgio Agamben, a figura jurídica do estado de excepção – totalmente extremada como paradigma do Nazismo -, progressivamente tornada norma na contemporaneidade, potencia a proliferação desmesurada dos dispositivos e a sua aplicação a uma vida nua – nem a vida natural da espécie, puramente biológica, nem a vida política e culturalmente qualificada, mas um limiar de indistinção entre uma e outra, entre facto e direito.

Por fim, mobilizaremos o pensamento no sentido de uma restituição ao uso comum das potencialidades capturadas nos dispositivos e no de uma resistência propriamente política a estas formas de controlo.

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Vivências quotidianas num contexto (des)industrializado do Vale do Ave: uma perspectiva sociológica sobre os percursos objectivos e subjectivos do operariado feminino de Riba d’Ave

Esta breve apresentação procura ir de encontro à necessidade de melhor compreender um fenómeno social contextualizado na Freguesia de Riba d´ Ave, situada no Extremo Leste de Vila Nova de Famalicão, um dos concelhos integrantes da região do Vale do Ave. Foi nosso intuito apreender de que modo a construção subjectiva das trajectórias individuais se relaciona com as oportunidades e os constrangimentos mais amplos e duradouros da estrutura social, neste contexto espacial fortemente marcado pela implementação da indústria têxtil e pela consequente desindustrialização. Tendo sempre presente a importância de identificar, ao longo deste processo, as características e diferenciações internas da classe operária na construção da sua visão do mundo e na definição de estratégias pessoais e colectivas. Concomitantemente, tentamos descortinar qual o papel do operariado feminino na luta organizada de classes, com a intenção de perceber a relação estabelecida entre a vida dentro e fora da fábrica, descodificando assim, linhas e práticas de (re)produção social territorializadas.

Nesse sentido, foram realizadas, ou (re)construídas, oito histórias de vida de ex-operárias da Fábrica Sampaio Ferreira & Cª Lda, fundada em 1896 pelo tecelão Narciso Ferreira, embora inicialmente tivesse a designação de Fábrica de Fiação, Tecidos e Tinturaria de Riba de Ave. Esta foi a primeira fábrica algodoeira a emergir no concelho de Vila Nova de Famalicão, dando início à sua actividade com 200 teares e uma estrutura produtiva verticalizada onde incorporava sectores de fiação, tecelagem e tinturaria. É um fácil exemplo da apropriação da energia natural e operária na criação de uma estrutura económica e social durável, que se prolonga para além do seu encerramento em 2005. A história deste estabelecimento encerra em si mesmo o modelo tipo de criação, ascensão e declínio das unidades fabris da região e da burguesia paternalista que nelas se ancorava. As suas ruínas continuam a marcar a paisagem da freguesia de Riba d`Ave, de tal modo que são frequentemente apontadas como um incómodo visual que deve ser destruído e nunca reconstruído, porque em última instância, espelham o declínio das trajectórias profissionais individuais e, ao mesmo tempo, relembram a falência de um projecto colectivo que esmorece nas margens do Rio Ave.

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Vivências e Práticas de formação na clandestinidade comunista (1940-1974)

Cristina Nogueira

Este artigo pretende dar conta das vivências de clandestinos comunistas durante o “Estado Novo”, caracterizando a sua forma de vida, as regras que tinham de cumprir para permanecerem clandestinos, conseguindo iludir a vigilância da polícia política.
Assumindo como pressuposto que a formação não se restringe ao espaço e ao figurino escolar, entende-se que existem outras estâncias formadoras, que, ainda que não tenham como seu esse objectivo, na realidade o alcançam. Considera-se que existem contextos informais de formação e que a experiência pode desempenhar um papel fundamental na formação de cada indivíduo, originando não só transformações superficiais, mas também profundas transformações na subjectividade e na identidade de cada pessoa.
Este artigo pretende caracterizar as práticas de formação na clandestinidade, defendendo-se que estas se centram fundamentalmente em torno de dois eixos: a formação experiencial e a formação não formal.
Quanto ao primeiro eixo, a formação ocorria pela e com a experiência e era reflectida e transmitida pela organização partidária a outros clandestinos que assim melhoravam as formas de iludirem a vigilância policial e adequarem as regras conspirativas aos avanços policiais. Estas experiências individuais foram reflectidas, por vezes discutidas e debatidas tendo originado um conhecimento partilhado pelos clandestinos que serviu para a criação de normas e regras de conduta. Foi esta formação pela experiência que permitiu que um conjunto de saberes fosse transmitido ao longo do tempo, reflectido e “armazenado” possibilitando assim permanência na situação de clandestinidade
Quanto ao segundo eixo, a formação não formal, defende-se que existia por parte a organização um forte apelo à formação e ao estudo. Esta formação centrava-se na alfabetização dos clandestinos não alfabetizados e sobretudo na formação política e ideológica, contudo, existia também uma procura de disseminação e vulgarização do saber, cujo acesso se entendia ser um direito de todos os homens. Deste modo, era dever de cada um partilhar o que sabia, assim como competia à organização partidária estimular o estudo e elevar o nível cultural de cada um, pois entendia-se a cultura e o conhecimento como factores potenciadores da emancipação humana.

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Fascismo, Modernismo, Neo-realismo Posições estético-ideológicas em arquitectura no Estado Novo

Esta apresentação é construída sobre algumas investigações prévias, que foram sendo feitas durante os meus dois últimos anos de curso.
De alguma forma, pretende-se vender a minha ideia daquilo que foi sendo a construção das orientações arquitectónicas em Portugal durante o período do Estado Novo, que é diferente se não contrária àquilo que foi sendo mais ou menos consensualmente impingido pelos discursos oficiais do regime ao longo das últimas duas décadas, seja pelas escolas, como a minha, seja pelos estudiosos que trabalharam e escreveram sobre o assunto, como Sérgio Fernandez ou Ana Tostões.
Já agora, e em defesa deles, para que não se pense que estou a atacá-los ferozmente, porque não estou, os estudos e publicações destes e doutros foram fundamentais para trazer à luz um período muito mal tratado da arquitectura em Portugal, e para permitir construir uma história que nos permita melhor compreender o presente.
O “Percurso da Arquitectura portuguesa 1930-1974” e “Os Verdes Anos da Arquitectura Portuguesa nos Anos 50”, assim como outras, são obras cruciais sem as quais os estudos que eu próprio fui fazendo nunca teriam sido possíveis.
De qualquer forma, a visão dominante sobre a arquitectura moderna em Portugal, o surgimento do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, a arquitectura dos anos 60 como resposta quer ao regime quer às limitações da arquitectura mais internacionalista, está, na minha opinião, errada, parte de demasiados pressupostos, e depende do esquecimento de uma série de factos para se manter de pé.
Assim, Ir-se-á brevemente integrar a realidade da arquitectura portuguesa no sec.XX num contexto internacional, sem o qual não se conseguem entender nem as abordagens internacionalistas á arquitectura nem tão pouco as nacionalistas ou regionalistas, que também se integram em linhas de pensamento mais alargadas que percorrem todo o Ocidente, pelo menos.
O aparecimento e gradual crescimento da arquitectura moderna em Portugal desde os anos 30 aos anos 50 é conhecido, e o seu entendimento consensual. O que vamos realçar, é a forma como o modernismo monumental de regime e a arquitectura mais próxima do movimento moderno internacional conviveram mais ou menos pacificamente durante este período de tempo, e foram praticamente apagados nos anos 60 e substituídos nas vanguardas por uma linha poética, fundamentada no Inquérito, a que os seus proponentes chamaram de neo-realista.
Esta linha, constituiu um compromisso de regime, aproxima-se metodologicamente da arquitectura mais conservadora do início do sec.XX, substituindo o populismo de Raul Lino por uma base empírica mais ou menos alargada, e afasta as vanguardas da arquitectura urbana, num período de crescimento do capital imobiliário em Portugal.
Por último, como todo o estudo sobre um caso concreto tem por trás uma macro-teoria mais alargada, afirma-se já aqui que a macro-teoria que se vai impingir é a de que todo o posicionamento estético é intrinsecamente ideológico, que não existe arte sem sociedade, e sendo que a produção artística não pode ser reduzida à ideologia, porque comporta uma vertente de conhecimento que se faz na relação homem-natureza, não é nunca desligada das formas de pensamento construídas na relação homem-sociedade. Em arquitectura, isto manifesta-se de maneira particularmente contundente, já que a arquitectura condiciona directamente através da manipulação da matéria as formas pelas quais se faz a vida social.

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Memórias dos moradores do bairro da Relvinha em Coimbra: da Resistência Quotidiana à autoconstrução no âmbito do SAAL

Através de uma “etnografia em retrospectiva”, pretendeu-se estudar as memórias dos moradores do bairro da Relvinha, que “conceptualizam o passado a partir de um tempo presente”, tal como as memórias estudadas por Sónia Vespeira de Almeida. Dividi a minha investigação em três partes que correspondem a três tempos. A primeira parte é constituída pelos quotidianos dos moradores marcados pela pobreza e múltiplas estratégias de sobrevivência, que chegavam a dar forma a acções de resistência quotidiana. Trata-se de quotidianos vividos na zona da Estação Velha em Coimbra até 1954, ano em que 28 famílias foram desalojadas. O segundo tempo, pretende retratar o quotidiano dos moradores durante o período entre 1954 e 1974. Estas famílias excepto os três primeiros anos em que tinham sido realojadas em bairros camarários dispersos pela cidade, foram novamente realojadas num bairro de barracas de madeira construído de raíz que procurava resolver de forma provisória a situação relativa à habitação destes moradores. As barracas de madeira, pouco tempo depois de serem estreadas, começaram a ter problemas de insalubridade. A pobreza e a fome continuaram a marcar a vida destes moradores. Durante este período, começou a haver algum contacto com o movimento estudantil e com os movimentos de oposição, que contribuiram para um fortalecimento da consciência política e para o aparecimento de formas de resistência de novo tipo. Porém, apenas, após o 25 de Abril de 1974, com a adesão ao projecto SAAL, se deu o início da construção de casas novas em auto-construção e se substituiram as barracas de madeira, marcando o início de um novo tempo. Um tempo que é lembrado pelos moradores como um tempo denso em que está presente a “espoir”, conceito desenvolvido por Luísa Tiago Oliveira ao considerar que a “espoir” descrita por Malraux acerca da guerra civil espanhola se tratava de uma esperança idêntica à que se viveu e sentiu em Portugal nos dois ou três anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Neste processo de auto-construção houve uma intensa participação dos moradores do bairro da Relvinha. Os moradores, na execução da Operação SAAL da Relvinha, contaram com a colaboração de vários grupos que se solidarizaram com a luta destes moradores pelo direito a uma habitação condigna. Entre os mesmos, contam-se um grupo de estudantes de medicina, grupos culturais, grupos de jovens voluntários estrangeiros, empresas, pessoas a título individual que deram um contributo imenso para a consecução dos objectivos dos moradores.

João Baía

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De João Grilo a Judite: Uma reflexão sobre o saber, a legitimação, a cegueira e a imaginação: conhecimento e literatura

Partindo do conto tradicional de João Grilo, que tudo adivinha sem nada saber, procurar-se-á construir um percurso reflexivo acerca da produção do conhecimento em diferentes paradigmas de reconstrução da realidade, questionando o lugar da metáfora na epistheme científica e artística, a
encenação da autenticidade através da objectividade ou ainda o sentimento da verdade e racionalidade. Se todo o conhecer decorre de um processo de linguagem, toda a ciência é pura representação: enquanto narrativa, o seu estatuto aproxima-se da ficcionalidade da arte, embora esta última trabalhe conscientemente sobre o imaginário. Talvez Judite, ao matar Holofernes, represente o fim do cerco da racionalidade logocêntrica à subjectividade e aos valores.

Pedro Almeida
(Bolseiro FCT)

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Marcas do Ex-Combatente: Um olhar sociológico sobre a experiência de guerra

A partir da nossa questão de partida em que procuramos aferir o impacto da Guerra Colonial Portuguesa no processo de construção da identidade pessoal, social e cultural dos ex-combatentes, tomamos como principais linhas de força delineadoras do nosso trabalho, a identidade, a memória e a guerra.

De facto, com base neste exercício de debate, procuramos, a partir da análise interpretativa das narrativas de guerra, entender de que modo os veteranos de guerra constroem a sua experiência de guerra, reconstroem o seu passado e apresentam a sua identidade. Ou seja, as nossas interrogações de fundo provêm da necessidade de delimitarmos as fronteiras da identidade tentando perceber a relação entre a identidade de origem e a identidade assumida em situação de conflito; da possibilidade de entendermos mais alargadamente a noção de ruptura e sobrevivência que a Guerra provocou e quais as suas implicações nas disposições adquiridas e reconstruídas de modo a se atentar nos processos de transformação pós-conflito; de analisarmos os traços sociais dos combatentes na sua trajectória à luz da duplicidade vivida em situação de guerra e ainda de avaliar a reconversão efectuada e a sua significação tendo presentes os impactos no lugar ocupado na estrutura social e grupal e, ainda, de questionarmos de que forma os combatentes incarnavam o “país enquanto centro”, por referência aos esquemas culturais e políticos da época, lutando por uma questão de sobrevivência ou pela crença na guerra.

Tendo em linha de conta estas ideias, a nossa pesquisa procurou reflectir sobre, não só um conjunto de atributos e dimensões transversais aos discursos produzidos pelos agentes, garantindo o acesso a uma memória comum, como também sobre as particularidades da sua trajectória de acordo com transformações ocorridas antes e depois da guerra.

Inês Coelho

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A campanha de Delgado no Porto: A importância da história local

A candidatura de Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958 foi proposta por um grupo de oposicionistas da cidade do Porto, tendo sido recolhidas em Vila Nova de Gaia as assinaturas de apoio necessárias à formalização da candidatura. Foi também ao Porto que o general fez a sua primeira deslocação após anunciar que era candidato às eleições presidenciais e onde realizou o seu primeiro comício. Aqui teve o seu primeiro banho de multidão, aquando da sua chegada à Estação de S. Bento, e foi nesta cidade que se iniciou a radicalização da campanha com os primeiros confrontos entre os populares e a polícia.

Estes acontecimentos mostram a importância da cidade do Porto na campanha presidencial de 1958, provavelmente, a mais importante eleição do Estado Novo e, seguramente, aquela que provocou a maior crise no regime.
Estudar como a oposição portuense se posicionou face às eleições presidenciais de 1958, assim como a forma como decorreu a campanha eleitoral de Humberto Delgado nesta cidade é, segundo os padrões historiográficos, um estudo de caso.

O estudo de caso, que também podemos designar por estudo de um acontecimento ou de uma situação, é muitas vezes visto com alguma displicência nos meios académicos. Considera-se que o importante é estudar um tema e não um acontecimento, que o importante é ter uma visão global de um assunto e que os estudos de caso nos dão uma visão parcial. No entanto, não podemos negar que estes estudos nos permitem estudar mais aprofundadamente um acontecimento ou um assunto e que o cruzamento de vários estudos de caso é que nos possibilita compreender melhor uma realidade.

Este estudo sobre a campanha de Humberto Delgado no Porto mostra a importância da oposição portuense no lançamento e definição de toda a estratégia da campanha eleitoral, revela a dimensão do apoio que o general tinha nesta cidade, a forma como foi feita a campanha, o desnorteamento e desarticulação da União Nacional, o clima de violência que pairou na cidade até ao dia das eleições e a dimensão da fraude eleitoral. E só articulando este estudo com outros do género é que podemos compreender o clima de euforia, agitação, violência e esperança que a candidatura de Humberto Delgado provocou de norte a sul do país.

Ana Sofia Ferreira

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